Hoje não! Hoje vou voltar ao propósito inicial e falar sobre um dos meus filmes preferidos, um daqueles que me marcou por quase todas as razões que poderia marcar: porque gostei das actuações, da história, da realização, da fotografia e mais do que isso, porque o vi na altura certa. Na altura certa porque foi na altura em que ele foi feito e na altura certa porque foi na altura em que a minha paixão por cinema se começava a desenhar como algo mais sério e começava a perceber que era uma paixão à qual nunca conseguiria virar as costas.
Se7en estreou em 1995 e eu devo tê-lo visto logo que saiu em Portugal. Ou seja, eu teria 13 ou 14 anos. E perguntam vocês: porque é que uma miúda de 14 anos foi ao cinema ver um filme tão pesado?...
Eu e a minha Júlia sempre tivemos estas ideias fabulosas para ir ao cinema. Tínhamos o nosso ritual acordado com os pais e muito encorajado sobretudo pelo meu pai. Todas as 4as, como não tínhamos aulas à tarde, íamos ao cinema ver um filme escolhido por nós. Normalmente o nosso ritual de escolha implicava verificarmos os actores (Brad Pitt, neste caso), parte da história (quanto mais louca melhor) e procurávamos sempre o filme mais gore possível. Não me perguntem porquê: foi apenas uma fase que levou à descoberta de filmes tão maravilhosos como o Se7en, o Shallow Grave, Nightwatcher, Lock Stock and Two Smoking Barrels, Underground, etc...
Neste filme em particular, lembro-me que juntámos um grupinho com o argumento do Brad Pitt. Lembro-me que tivemos que mentir à mãe da minha colega Carolina, que só nos deixava ir ver filmes mais leves e eu lhe contei uma história de qualquer outro filme mais leve que teria ido ver com o meu pai no fim-de-semana, para que ela pudesse fingir que teria ido ver outro.
Lembro-me de estar sentada no cinema e perguntar à Júlia: esta história é real? Lembro-me de que quando foi descrito sem grande pormenor o crime ligado ao pecado da Luxúria, sentir as minhas entranhas a arrepiarem-se perante a crueldade do crime. Lembro-me de ver a cena final a chorar, porque, como a personagem de Morgan Freeman já nos havia dito, não havia um final feliz para esta história, mesmo que eles tenham apanhado o assassino.
É incrível como é que 15 anos depois me lembro com pormenor do que senti naquele dia sentada na sala de cinema a ver um filme que escolhi porque o actor era giro e a história me parecia gore o suficiente para irmos ver sem pais a chatearem-nos.
E foi assim que o David Fincher me conquistou. E foi assim que percebi que o Brad Pitt era mais do que giro. E foi assim que o Morgan Freeman se tornou um ícone para mim.

Hoje, 15 anos mais tarde, deitada na minha cama a curar uma constipação, continuo a sentir-me arrepiada perante a crueldade dos crimes, continuo a adorar as actuações, continuo a quase sentir a necessidade de esconder a cara quando aparece mais uma vítima, continuo a adorar a luz e a fotografia que nos transportam para uma era tão negra, tão negra que quase queremos desistir.

No entanto, hoje, 15 anos mais tarde e com o entusiasmo das minhas convicções, sinto-me muito mais identificada com a personagem de Brad Pitt do que com a do Morgan Freeman. Com 15 anos, a depressão da adolescência, levava-me a pensar que Sommerset (a personagem sábia e desiludida de Morgan Freeman) teria razão e que as pessoas e o mundo são tão cruéis que nada nos resta senão aceitar a vida como ela é. Hoje, quase com 30 anos, identifico-me muito mais com David Mills (o jovem detective interpretado por Brad Pitt). Mills acredita que, apesar de tudo, temos que continuar a tentar ter um impacto no mundo, make a difference. E é nisso que eu acredito. O mundo merece que eu me importe, mesmo que isso não me leve a nada!
Deitei-me com a mesma sensação com que sai do cinema há 15 anos atrás: a vida é f*****...

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